terça-feira, 20 de maio de 2008

Um pouco do espírito da Júlio.

Trecho do filme de Bruna Barella.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Um retorno

Liguei para o médico e consegui um atestado. Final de tarde, eu no centro da cidade com meu álibi na mão. Nas ruas um vento frio que espalhava uma garoa gélida, deixando os transeuntes com caras de desconforto, deixando-os encolhidos nos agasalhos que possuíam. Aos que não eram pedestres descrevo a cena da seguinte forma: Desfiles de carros novos, importados, envenenados, possuídos por gente carrancuda de narizes nas nuvens.

Caxias way of life: Lembro que noventa por cento dos meus colegas no tempo de escola desenhavam carros e caminhões, e tenho certeza que oitenta e nove vírgula nove destes, compraram um carro antes de uma casa para morarem. Eu era o que não desenhava carros. Desenhava paisagens, casas pegando fogo, leões, heróis imaginários.Não tinha nem carro e nem casa, nem projeto de vida como os demais. Trocando em miúdos eu não passava de uma ovelha desgarrada. Me arrependi por não seguir o resto do rebanho. Quis que meu pêlo de ovelha negra embranquecesse com o tempo, mas não. Tonalidade quase cinza. Feia.

Andei pela avenida Júlio de Castilhos, próximo ao canteiro central, olhava para o céu de chumbo pronto a descer sobre nós, alguns prédios já estavam encobertos pela neblina. Pensei: Conhaque. Apenas a palavra, depois senti o gosto na boca. O celular vibrou:

- Miguel?
- Fala Lúcio!
- Onde tu ta?
- Tô no centrão meu velho! E tu?
- Tô no Café Express.
- Solito?
- Sim.
- To pertinho. Duas quadras daí. Tava pensando em tomar um conhaque. Com esse frio todo vindo....
- Beleza, te espero aqui.- A voz de Lúcio carecia de ânimo.


Entrei no Express. Um pequeno café animado sempre com um músico um banquinho e eu um violão. Funcionava no período vespertino apenas. Estranhei Lúcio por estar naquele ambiente.
- Ô Miguel, veio rápido tchê!
- Te falei que tava perto meu.
- A Valeska voltou.
- Quê?
- Faz uma semana.
- capaz!
- Ela tava aqui agorinha mesmo.
- Puta merda! E aí? O que conversaram?
- Só bobagem Miguel... Pelo menos pra mim foi. Nada sobre nós, sobre os cinco anos... Conversamos como velhos amigos e isso doeu prá caralho! – Lúcio olhava pra mesa, arrumava os óculos e passava a mão na cabeça repetidas vezes. Sabia muito bem que ele estava abalado.- Ela ta deslumbrada com a Europa, só falou das festas que foi, os pubs que visitou e até os estrangeiros que beijou. Como se eu quisesse saber!
- Que foda. Tu tentou puxar a conversa pra um lado mais emocional?
- Pior que não Miguel. Só fiquei quieto com cara de paspalho, dizendo: “ que bacana”, “que legal”, “que bom pra ti”. Esperei a cada palavra que ela mencionasse algo que lembrasse do que fomos. Mas não. E lá pelas tantas da conversa fui grosso com ela.
- O que tu disse?
- Besteira.
- Pô, vai ficar de segredinho?
- Ah, Eu disse que se eu quisesse saber sobre Londres procuraria na Internet.
- Só isso?
- Aí ela disse que sempre me achou um ignorante e tinha medo de me dizer, pra não me magoar. Disse que procurava agora alguém com futuro, alguém que fosse maduro e compartilhasse com ela essa vontade de conhecer o mundo e blá, blá, blá. E o pior: Que perdeu tempo demais comigo.- Meu conhaque foi posto à mesa pelo garçom. Lúcio pegou e tomou meio copo em um gole só.- Te pago outro. Pra finalizar: Ela saiu daqui para ir a uma exposição de arte no Zarabas, junto com os amiguinhos novos e cosmopolitas dela. Vai até as dez, vinho liberado.
- Vou pelo vinho.
- Também, mas antes tenho vinte pilas pra nós cheirar. Ou vamos pra lá com cara de coitado?
- Veio premeditando o fora então?
- A cocaína sempre esteve presente Miguel. Com fora ou sem fora.
Lúcio foi ao banheiro. Cinco minutos depois fui eu. Ao ver a estradinha branca em cima da minha carteira de couro surrada, senti certa culpa. Mas lembrei do meu mundinho que havia ruído. Cheirei como o perfume de Paula naquela noite linda.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Descendo a ladeira

Segunda-feira veio. Eu no trabalho sentado na frente do computador na pequena salinha de cadastramentos de notas fiscais.
Ao meu lado, na minha mesa, uma pilha de notas fiscais pendentes do Sábado em que trabalhei de ressaca. O supervisor zanzava como uma mosca em volta do estrume. O estrume em questão era eu. Ele não segurou o silêncio:

- Miguel. Tu levas a sério o teu trabalho como antigamente?
- Quê? - Minha cabeça arquitetava uma saída evasiva para a pergunta.
- É isso que ouviste! Tu levas a sério?
- Claro que levo. - Não olhei para o rosto dele - Não levo?
- Não me parece. Ou seja, não é o que eu sinto. Uma vez tu eras o cara mais criativo e cheio de vontade da empresa. Agora tá aí, desmotivado, com cara de quem nunca dorme... Tua mesa parece um cocho...
- Desculpe, o que é um cocho?
- COCHO É ONDE O PORCO COME!!! - Gritou. Ele tinha cara de quem já tinha comido em cocho.
- Tu tens até amanhã pra lançar essas notas no sistema. Depois nós conversamos melhor sobre tua preguiça. Vou sair pra almoçar e depois tu podes ir.
- Sim, tudo bem.
Continuei sentado olhando para a tela. Olhando o cursor piscar sem parar. Pensei no tempo em que eu fui um funcinário modelo na empresa. Dava vontade de vomitar. Perguntei-me se aquele entusiasmo ao trabalhar que tive um dia era real. Sabia o motivo do qual deixei de ser alguém sério para compromissos. Naquele dia em que me desiludi com a vida que idealizei ao lado de Marina. Lembro a voz chorosa dela no telefone a quilômetros de distância de mim, colocando o ponto final em uma história pela metade. Olhava para o monte de notas e não via nada mais que um monte de pedras pesadas para um apenado carregar na prisão.Tudo era sacrifício pra mim. Tudo significava nada. Decidi inventar um mal súbito e saí antes que meu chefe voltasse do almoço.

Essas decisões covardes turvavam meu caráter aos poucos. Cada vez que saía e bebia demais, tentava agarrar qualquer uma pra aplacar a solidão absurda que eu sentia, minha alma obscurecia. Como pingos de tinta negra caindo em um copo de leite. Negligenciar meu próprio trabalho não ajudava-me. No momento achava que seria meu alívio. Não tinha a consciência que a vida continuava. Pra mim era o fim da linha. Me considerava o escritor, mas minha imaginação não conseguia construir um outro futuro diferente das minhas lamentações. Eu estava mudando, simpatizando aos poucos com o lado torto da vida. Viver sem regras era mais fácil. Então eu descia uma ladeira aos poucos. Senti vontade da noite, mal podia esperar por ela.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A Primeira noite com Paula.

Acordei antes que Paula. A luz fraca daquele dia cinza, me acordou. O computador estava ligado, tocava uma música.


"o rosto se perdeu
O gesto se desfez
Depois daquele beijo teu
Nada real ficou"


Ouvi a música por alguns instantes, Paula acordou sem que eu percebesse.

- Dormiu bem nessa cama apertada? - Paula perguntou.
- Dormi sim. Como uma pedra.
- Quando tu entrou aqui, lembra do que tu disse?
- Não. Disse alguma merda?
- Disse mais ou menos assim: "Vai que tu é alguma doida que transa comigo e depois me corta em pedacinhos e me coloca no freezer."
- Sério? - Gargalhei - O que tá esperando?
- Tu és daqueles que não lembra nada do porre?
- Mais ou menos, lembro aos pouquinhos.
- E se arrependeu de alguma coisa?
- Ah! Eu não! Aqui tá bom, não vou mais embora.- Ri.
- Ah, é? - Me olhou direto nos olhos. Era tão diferente vê-la daquele ângulo. Apreciar cada traço do rosto. Até o cabelo desarrumado de quem recentemente desperta, era harmonioso. Uma moldura de caos para o lindo rosto de mulata. Alguns dizem cabelo ruim, eu confesso que ao brincar com meus dedos ainda tímidos pelo cabelo dela me dava certa paz, e há tempos não sentia a sensação. Preferi ficar ali, sem dizer muito, olhando, descansando, abraçando e pensando: "o que deve ser melhor na vida do que isso?"

- Vai começar a esfriar. Chegando o inverno - Comentei.
- Esse inverno de vocês é rigoroso. Ainda não vi a neve.
- Tu diz esse “de vocês” como se não fizesse parte da cidade.
- Eu não faço parte dessa cidade estranha.
- Entendo. Nasci aqui e às vezes me sinto um estrangeiro ou alienígena.
- É. Povo fechado, estranho... Áspero, trabalho e trabalho, dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro e dinheiro.
- É. Talvez pela convivência tu acabe como os Caxienses. De tanto ver cara fechada um dia a tua também vai se fechar.
- Acho estranho essa supervalorização da origem italiana. Que raiva me dá desses gringos às vezes. Tu tem cara de gringo.
- Eu? Meu sobrenome é português. Mas tenho meu pé na polenta.
- Eu tenho sobrenome italiano.
- Capaz... Negrinha assim?
- Dos meus pais. Eu sou adotada.
- Sério? E fala nisso numa boa?
- Sim, sem stressssss! A minha história é de novela mexicana.
- Conta aí.
- Desde que me conheço por gente, sou Paula Capone. Filha de José Capone e Maria Capone. Quando tinha meus dezesseis, minha mãe adotiva contou numa boa que eu era adotada e perguntou se gostaria de conhecer minha mãe biológica.
- Isso lá em Pelotas?
-Isso. Então na curiosidade conheci. Depois me disseram que eu vivi a infência inteira na mesma rua em que ela morava.
- Tua mãe biológica?
- É. Ela me viu crescer. E eu nem sabia.
- Putz! Que história linda. E quando a viu, o que ela te disse?
- Não muita coisa. Ela é um pouco perturbada.
- Enfim, não vou fazer tu entrar em detalhes. Mas tu visita tua mãe biológica?
- Não, ela sumiu. Mas não faz falta não. Talvez hoje nem me reconheceria.
- Sei como é isso. Meu pai também não faz falta. Só que ao contrário de ti, eu que não reconheceria ele hoje.
- Viu ele poucas vezes?
- Que eu lembre duas. Uma quando eu tinha uns oito anos. A mais recente vez foi quando eu tinha treze. Me levou dar uma banda (*). Meu pai foi muito famoso por essa região. Era radialista de uma porra de rádio brega. Mas conheço mais ele de histórias que outras pessoas me contam. Ele não era uma boa pessoa. Não gosto do que ele representa e sempre tremo quando alguém diz pra mim que às vezes me pareço com ele.
- Também não vou fazer tu entrares em detalhes.
- É Neil Young?- Cortei o assunto.
- É, só baixei essa música. Lotta Love.
- Mais tranqüila que eu e tu nessa cama. Imagina o frio lá fora.
- Vou sentir mais quando tu sair porta à fora.

Legítima declaração que deixa homem sem palavras.

“so if you are out waiting
I hpe you show up soon
Cause my head needs relaxin` not solitude
Gotta Lotta love
Gotta lotta love”

Ela acendeu a ponta de um baseado. Fumamos ouvindo apenas aquela música. Olhávamos um para o outro com preguiça do mundo lá fora. Algum pretexto pra prolongar a vadiagem romântica daquele final de manhã. Fora a música, nossas pouquíssimas palavras. Estranhos costumam ficar constrangidos com a falta de assunto. Nós não. Mandávamos por algumas horas o mundo pra aquele lugar. Não pensava na segunda-feira, que geralmente é o dia dos desfiles das caras de bunda no trabalho. Todos em pé trabalhando pensando em voltarem para suas camas. Trocamos sorrisos, beliscões, beijinhos, olhares cheios de expressão, gargalhadas sem motivo. A beleza irresistível do simples. Além do mundo, havia esquecido Marina enquanto estava naquele apartamento.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Paula

Eu estava sozinho no Velho Oeste Snooker Bar. Encolhido dentro do meu sobretudo negro mais velho que eu. Clima frio lá fora. Pesado lá dentro mas bastante diverso. O Velho Oeste era localizado na mesma quadra do bar de rock do Rivaldo e do bar do Gringo, que eram pontos onde os metidos com a arte se encontravam. Antes dos shows começarem no Rivaldo, O Velho Oeste era freqüentado por rockers, punks, emos, headbangers, ou qualquer público correspondente ao show da noite. Da meia-noite até as seis da matina entrava de tudo: trabalhadores da noite, prostitutas, viciados, e perdidos como eu.

Era cedo pra mim e não pretendia estender a noite. Sem dinheiro não haveria nada, nem esperança, mesmo sendo aquele tipo ilusório que te faz sair todo o fim-de-semana.

Foi naquela noite em que falei com Paula pela primeira vez. Sentado eu observava a negra alta e elegante que desejaria por um bom tempo, jogando sinuca com duas amigas. Já havia visto Paula por aquelas bandas em noites que quase sempre eu me esquecia por completo.

Bebi o último gole de uísque pensando em ir até lá. Abordá-la, saber de onde tinha vindo beleza tão peculiar. Junto à ela duas amigas de visual ripongo. Paula brilhava entre elas como um tesouro ocultado e ao mesmo tempo nas minhas fuças. Tinha um certo receio de platéia, seria mais fácil se ela estivesse lá sozinha. Depois que o calor do uísque subiu na face suas amigas não eram mais empecilhos, nem mesmo o papa seria. Desci as escadas do estreito mezanino, cruzei por meia dúzia de mesas de sinuca, ela já parecia saber que eu ia na direção dela.

- Oi. - disse eu sem muito jeito – Já te vi por aí... – olhei em volta – Será que poderíamos ir lá fora pra conversar um pouco? Sei lá, tomar um ar ou.... Fumar um. Tem?

- Hum. Eu também já tinha te visto. Tem nome? – Riu.
- Tenho. Mas vá dizendo o seu primeiro. – Sorri com o canto da boca.
- Paula. E o teu?
- Miguel. Agora que fomos apresentados, podemos ir lá fora né?
- Por que lá fora?
- Sei lá... Pela privacidade.... Ou talvez pelo motivo que não seria muito legal acender uma vela aqui. – Fiz rosto de quem não quer ser levado a sério.

Em frente ao Rivaldo Roque bar, tragávamos o baseado.

- Tu é daqui da city? – Perguntei.
- Não. Sou de Pelotas.
- Satolep?

Ganhei o primeiro sorriso espontâneo da noite, que tanta beleza achava no espontâneo? Talvez era tudo que me faltava.

- É. Satolep. Tu gosta de Ramil?(*)
- Sou fã do Ramil.
- Ele é de lá sabia?
- Sei... E tu... O que faz aqui na terra da uva?
- Trabalho como Designer.
- Legal.
- E tu? Nasceste aqui?
- Sim. Morei um tempo em Porto Alegre também. Rolei de lá pra cá um tempão... Família dividida sabe como é.

- E tu ficou por?
- Tenho amigos aqui... Resolvi ficar.
- Gosta daqui?
- O que vou te dizer? Amo e odeio essa cidade. Ela é indecisa como eu.
- Como assim? Passa por indecisão? Do que?
- Tô na fase do “não sei”. Não sei o que faço, não sei o que sou e não sei o que quero fazer. Tento ser músico, tento ser escritor, penso em fazer algo que me dê uma certa garantia de não morrer de fome no futuro, tenho um emprego que não gosto, mas nenhum foco. E foco é tudo! – Eu estava falando demais. Uma conversa complexa (ou sem sentido) é desinteressante depois do álcool. Desejaria outras coisas, menos o que fui impelido a contar sobre mim. Senti-me culpado e resolvi deixar ela falar.

- Tu trabalha com o que hein?
- Lanço notas fiscais em uma delivery de medicamentos. Um saco.
- Deve ser.
- Te entendo. Tem tanta coisa que eu gostaria de fazer. Nós nos sentimos tentados por tanta coisa nesses tempos. É muita informação.
-É.
- Olha – olhou o celular – Vou indo. É tarde.
- Posso te acompanhar até em casa? É perto?
- Na Pinheiro com a Marquês, duas quadras. Vou lá avisar a Michele e a Gabriela.
- Te espero aqui.

**************************************

Na frente do prédio de Paula, sentamos nos degraus da porta de entrada.

- Conheço bem essa parte do centro. – Eu disse – Tenho boas e más lembranças daqui.
- É? Não simpatizei muito com esse prédio não. Mas o aluguel é barato. Já morou aqui perto?
- Já. Do outro lado da rua – apontei – em um dos três prédios da Galeria do Inverno. Quando era eu e minha mãe apenas. Depois veio meu padrasto e ferrou toda minha vida.
- Como assim?
- Ele bebia e sentava a mão em mim. Passei uma infância sozinha e ruim ali, mas tenho saudades de algumas coisas é claro, sempre quando passo por aqui rola um clima nostálgico. Eles fecham aquela galeria no domingo. Eu bem piazote, brincava sozinho no escuro daquela galeria com minha bolinha de borracha. Me sentia o dono do mundo no deserto que era o Domingo. Depois mudei para bairro das estrelas, quando optei ficar aqui com meus tios quando minha mãe, meu padrasto, e minha irmã resolveram ir para Porto Alegre. E no Bairro das estrelas é aquele negócio... Cheio de casas, futebol na rua, gurizada sempre reunida... Aí fiz amigos mesmo. Nesse ambiente empilhado de gente em apartamentos é mais difícil fazer amigos. Sei lá.

- Sei... – Tragou fundo o Marlboro – Quer uns pegas? – Traguei o cigarro – Moro sozinha a tempos. Não consigo mais me enxergar morando com minha mãe. Pra ser mais precisa, foi logo quando comecei a facul. Isso lá em Pelotas. Resolvi morar perto da universidade e visitava minha mãe no fim-de-semana.

- Me senti uma criança perto de ti agora. Que idade tu tem Paula?
- Vinte e cinco.
- A mesma idade que eu.

Paramos de falar subitamente. Eu precisava agir, quanto a ela não sabia o que passava na sua cabeça. Então sem pensar a beijei pela primeira vez. Quem nos visse agarrados aos beijos lá sentados, pensaria que se tratava de um casal que há tempos não se encontravam. Terminamos, houve um breve silêncio.

- Será que posso subir e tomar um café contigo? - Arrisquei.

Então subimos.



(*)_ Vitor Ramil, Compositor e escritor nascido em Pelotas (rs) N.E

sexta-feira, 14 de março de 2008

Eu e Lúcio



Havia já um tempo que Lúcio era meu amigo de festas, bares, shows e bebedeiras em geral.

Antes eu não saía muito, amava incondicionalmente Marina, até ela ir estudar na Espanha e me esquecer. Lúcio também não saía muito, amava incondicionalmente Valeska até ela ir estudar na Inglaterra e esquecê-lo. Lúcio namorou Valeska por cinco anos e estava mais inteiro do que eu emocionalmente. Eu vivi um amor de cinema com Marina durante trinta dias intensos e levei dois anos para esquecê-la. Resilências à parte, éramos dois cães magros abandonados, sensíveis, inseguros e à beira de um ataque de nervos afundando no mesmo barco.

Era óbvio que saíamos todo o fim de semana, procurando por nossas Marinas e Valeskas. Sabíamos lá no fundo o que procurávamos, porém nunca admitíamos um para o outro. Quase sempre bebíamos demais e quando sobrávamos no balcão de algum bar, evocávamos lembranças com nossas vilãs e se sobrasse tempo, reclamávamos de nossos empregos.

Tínhamos outras coisas em comum, morávamos na mesma rua no Bairro das estrelas. Tentávamos nos inserir na cena cultural de Caxias, que naquela época vivia uma efervescência cultural depois de anos submissa à frieza do aço e a grossura dos gringos. Viria uma geração farta da pouca diversidade cultural e essa geração era a nossa. Caxias recebia muita gente de outros estados do Brasil atrás de emprego, criava-se uma diversidade étnica gradativamente. Com isso a cultura também evoluía. Bandas de rock, artistas plásticos escritores, poetas, cineastas apareciam no Secundário todo o dia. Porém o público parecia ser pequeno pra tanta coisa surgindo tão rapidamente. Talvez os habitantes de Caxias nem tinham noção da velocidade que as coisas estavam acontecendo. Nós queríamos fazer parte também. Lúcio era baterista de uma banda de Punk rock, a Leather Jacket. Eu toquei em uma banda de rock Gaúcho com certa fama na cidade juntamente com Fabian. Acabei largando a banda e um emprego paralelo (música não enche pança de ninguém) para viver meu romance de cinema com Marina. Virei então aspirante a escritor e tinha um blog na Internet com alguns leitores fiéis.

Naquela sexta-feira no bar do Gringo(*), ficamos observando a clientela saindo mais cedo. Maioria indo ao bar de rock do Rivaldo assistir uma das dezenas de bandas que tocam cover de ac/dc e led pelos bares da cidade. Tínhamos apenas o tilintar de moedas nos bolsos e pouca fé no que viria a seguir, mas suficientemente bêbados e descarados. Lúcidos éramos travados e cheios de nóia.

Os olhos de caçador de Lúcio funcionaram bem nos supostos últimos momentos de nossa noite: Duas fêmeas sozinhas na mesa do fundo. Tipos fashionistas, lencinhos xadrez nos pescoços branquinhos como a neve, braços tatuados. Talvez ali esperando alguém pra fazer uma festinha em um apartamento liberado.

Chegamos junto à elas daquele nosso jeito em cima do muro, meio esquisito. Apenas sorriram e pedimos para sentar-se à mesa delas, fomos bem aceitos.

- E aí gurias? – Sorriso sem jeito característico de Lúcio – Onde que é a festa?
- Hoje em casa...- Disse uma delas.
- E o nome das gurias? – Disse eu ensaiando de educado.
- Fernanda – Muito simpática, um sorriso largo.
- Luísa – Parecia ser a mais tímida.
- Pois é, a gente também estava aqui sem planos... Ainda que descobrimos vocês aí sozinhas. Poderíamos fazer algum agito. – sugeriu Lúcio.
- Sabe que nós já vimos vocês aqui seguidamente... Tu toca em uma banda né?
- Sim. A Leather Jacket. E o Miguel escreve em um blog. – Apontou pra mim.
- Sim, vocês não são muito estranhos... – Disse Fernanda.
- Aí, a gente quer beber mais... – Disse Luísa com ares de tédio.
Pensei nas moedas que tínhamos.
- Nós também...Mas a grana se foi.
- Grana a gente tem, mas não queria beber aqui. Enjoa esse lugar, aquele gringo grosso, as mesmas pessoas. Preferimos ir ao nosso apê. – Não sabia porque que Luísa riu baixinho.
- Nós podíamos pegar uma bira no posto pra beber lá em casa. – Disse Luísa.
- Nós buscamos... Certo! – Disse Lúcio. Luísa deu cinqüenta para Lúcio. Fiquei espantado com a confiança.
- Putz, vocês vão vir com a gente? – Perguntou Lúcio.
- Nós vamos ver se não chegam umas amigas, uns amigos... – Disse Fernanda.
Lúcio não queria perder tempo, deu as costas e foi, logo atrás eu, achando tudo meio estranho e seguindo o velho provérbio : “Quando a esmola é demais o santo desconfia”.

Dentro do carro comemoramos previamente.

- Caralho, Lúcio! Quem diria que a gente ia se dar bem nessa porra de Sexta-Feira!
- Ihaaaaaaaaaaaa!!!- Gritou – Miguel! Tem camisinha?
- Tenho várias vencendo já...
- Hoje nós vamos se dar bem!
- Não vamos comemorar gol antes do tempo...
- Ah pára Miguel! Calcule: Duas pra dois, apê liberado, bira... Pô Miguel, qué mais o que pra dar certo?
- A última coisa que eu quero é que dê errado!
Saímos em direção ao posto, era bem perto.
Lá compramos uma vodca, uma garrafa de dois litros de coca-cola, trago típico pra quem tem pouco dinheiro, saímos rápido como quem tira o pai da forca. De volta, Lúcio encostou o carro de qualquer maneira.

Ao chegarmos no bar, deparamos com as meninas acompanhadas de dois caras.

- Olha os guris! - Luísa sorridente - Deixe eu apresentar vocês ao Gui e o Pê. O Gui é meu namorado e o Pê é noivo da Fernanda.
Gui levantou-se, era alto e forte, parecia frequentar a academia frequentemente. Pê, era mais magro e com cara de intelectual, os óculos davam esse quê.
- Eles vão com nós lá pro apê, vocês vão ter papo pra conversar! - Disse Fernanda.
- Disseram que tu é o batera da Leather Jacket.- Disse Gui - Toco uma guitarrinha de vez enquando, bacana cara!
- Eu faço jornalismo na UFRGS, já li teu blog cara! - Sorridente Pê - Bastante... Me fugiu a expressão... Experimental!

Lúcio interrompeu as formalidades todas.

- Olha, na verdade fomos comprar uma bebida para as gurias... Estamos de saída e nós vamos acordar cedo amanhã.
- Calma pessoas! - A descolada Fernanda - Vamos lá, não é sempre que as pessoas que tem algo em comum se encontram, néam?
Pareceu-me pensamento de loira.
- Olha, vamos ter que ir. Nós estamos sempre por aqui, outra hora nos encontramos ok?

entregamos o troco, viramos as costas e fomos. Ouvi alguém perguntar atrás de nós: Tem orkut? Não respondemos e em zigue zague voltamos ao carro.

Na volta pra casa, ainda passamos por alguns bares. Todos fechados ou fechando. Noite morta. O silêncio dentro do automóvel imperou até Lúcio lembrar de Valeska. Logo, comecei a lembrar de Marina. Por último reclamamos dos nossos empregos, mas o que nos fez quebrar a rotina de noites sem sucessos foi a garrafa de vodca e coca-cola que esquecemos no banco de trás. Paramos na casa de Fabian, este estava sem sono e resolvemos reclamar de tudo à três. Bêbados nossos problemas pareciam ser os piores do mundo, mas era divertido de certa forma falar deles.



(*) O gringo é o nome vulgar para o de origem italiana na serra gaúcha. Sinônimo de avareza e também de cobiça. O gringo em questão era o dono do bar chamado Vanderlei, famoso por sua grossura e estupidez e pela enorme força física. Poderia ser Bar do ogro, mas deixamos assim. N.E

quarta-feira, 5 de março de 2008

Mercito Madbass


Na cinzenta metalúrgica do parque industrial de Caxias do Sul, alguns funcionários fumavam seus últimos cigarros antes de começar o expediente.

Mercito Madbass estava entre eles. O apelido Madbass foi dado a pelos seus colegas de sua antiga banda de rock and roll, onde tocou baixo, sem ao menos saber afinar o instrumento. Mercito cresceu ouvindo Sex Pistols e admirando Sid Vicious. Inclusive foi a postura de Sid que moldou seu caráter (se é que Sid tinha um). Mercito Madbass seguia a seguinte rotina de vida: Pular de emprego em emprego, drogar-se com freqüência, espalhar para todos que se drogava e no fim do ano - não importava a situação que estivesse – ir para Florianópolis. Enquanto o final do ano não vinha, a noite roqueira de Caxias teria que suportá-lo. Mercito era um adicto exibicionista, foi visto cheirando em mesas de bares lotados, fumando maconha na frente de igreja em plena missa e até praticando sexo em via pública com uma punk do Parque dos Bugios(*).

Madbass já foi pego trinta e oito vezes pela polícia, tem dez processos judiciais pequenos dos quais também fazia questão de exibir. Nove dos dez, relacionados à posse de entorpecentes e um da ex-namorada – Mercito pontualmente atirava pedras na casa da ex às nove e trinta e cinco, sempre aos Domingos.

A sirene que tanto detestava soou. Hora de trabalhar. Já estava farto do emprego. Colocou-se atrás do torno. Torneava as peças de metal, ao terminá-las jogava na caixa com toda a força. Os estrondos foram ouvidos por todo o pavilhão, mesmo com muito barulho das máquinas. Quando aconteceu o terceiro estrondo, o supervisor veio a intervir.

- Márcio. Pra quê jogá as peça assim?
- É Mército, eme, e, erre, cê, i, tê, o. Tem que soletrá pra ti veio?- Tinha a voz rouca e fraca, cordas vocais curtidas pela cocaína, vodca, nicotina e maconha.
- Assim tu risca as peça. Tem que mandar polir de novo.

Mercito fez uma de suas caretas feias que arrancariam risadas do diabo. O velho supervisor nunca viu cara tão doido. Ficou um pouco assustado, desconfiou que o seu funcionário estaria alterado mentalmente.

Mercito continuou, jogava as peças com mais violência ainda. Depois de dez vezes, novamente veio o velho curvado e calvo.

- Márcio, não dá mais. Vô te botá pra rua.
- Mas pode botá.
- Vai então! - apontou para o portão de saída - Tá na rua!

Mercito jogou as luvas de segurança para o alto, pulou e deu um soco no ar que lembrou o Pelé. Abraçou o velho à força, deu-lhe um beijo na cabeça calva do velho.

Seriam quatro meses de seguro desemprego, quatro meses de drogadição e bebedeira. Ao sair do departamento pessoal com um sorriso maroto no seu rosto trintão, embarcou no seu Opala branco cheio de amassões na lataria.

No caminho de casa passou pela curva do meretrício, pegou vinte de cocaína, deu uma parada na rodovia. Em frente à casa de seus pais, sua mãe molhava as flores com aquele rosto sereno, mesmo sendo uma mãe que sofre.

- Mãe, fui pra rua!
- De novo Mercito! Ai meu deus! E agora? Tu bebeu?
- Não. Tô normal véia! Tô feliz!
O vizinho da casa ao lado esboçou um aceno para Mercito.
- QUE TU TÁ OLHANDO?! QUÉ UMA FOTO?!
- Não...eu tava só te dando oi...- Disse o vizinho na boa intenção.
- QUE NADA! FAZ TEMPO QUE TU ME CUIDA! PAU NO CU!
- Mército, não faz assim... - A mãe tentando acalmar a situação.
O vizinho recolheu-se.
- Mercito meu filho. O que que eu fiz pra tu ser assim? – Questionou a velha mãe.
- Bebia água do parto veia – Entrou no portão de ferro baixinho.
- Vô pegá um dinheiro, te pago no meu acerto. Não sei se volto hoje.

A mãe de Mercito calou-se como todas as outras vezes.

De volta ao Opala, pegou a avenida principal do bairro das estrelas para o centro. Era Sexta-Feira, resolveu adiantar o compromisso do Domingo com a sua ex- namorada. Depois aproveitaria o resto da noite e talvez um amanhecer.



(*) Parque principal de Caxias do Sul. À noite freqüentado por moradores de rua, punks, hipies e usuários de drogas.